Procura-se consumidor

150

A par de tantas dificuldades e dos percalços da economia, inflada pela interminável crise política que insiste em resistir às investigações da Lava-Jato, o empresário lojista, como um verdadeiro equilibrista, continua fazendo a sua parte. Buscando saída onde aparentemente não existe, lutando para manter empregos e o seu próprio negócio. Além disso, o comércio ainda tem que enfrentar a concorrência desleal do mercado informal, que pune quem paga imposto e gera postos de trabalho; leis e regulamentos ultrapassados, que já não fazem mais sentido nos tempos atuais.

Todas exigências burocráticas caras e inúteis, no momento em que as palavras de ordem no país são crescimento e desenvolvimento para fazer rodar o círculo virtuoso de uma economia combalida e ferida. Economia esta que, para se recuperar, tem que contar com a expansão dos setores produtivos, cada vez mais massacrados por medidas que ignoram as dificuldades enfrentadas pelas empresas.

Tal cenário mostra o quanto os setores produtivos, especialmente o comércio, estão sendo duramente penalizados com a crise política e econômica, que gerou um quadro bastante adverso para o consumidor o ano passado e que permanece em 2016. Por causa dessa situação, o cliente sumiu das lojas, empurrado pelo crescente desemprego, inflação alta e falta de crédito. Pesquisa recente da Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito) mostra um dado bastante preocupante: ao retirar seu nome do cadastro negativo, 84% dos consumidores disseram que não pretendem fazer novas compras nos próximos três meses.

Aquela velha premissa de quanto menor o preço do produto, maior o número de consumidores com o consequente crescimento do mercado, resultando em lojas cheias, lucros assegurados e clientes felizes precisa ser revista diante do quadro atual. Na verdade, o consumidor sumiu. Faltam clima, disposição e dinheiro, por maior que sejam as ações dos comerciantes para atraí-los.

Balanço rápido do comércio varejista no primeiro semestre mostra um quadro bastante difícil. Os pedidos de falência registraram alta de 26,5% em relação ao ano passado, segundo dados do SCPC. Em junho, o número de pedidos cresceu 22,8% na comparação com 2015.

Outro dado preocupante é o que mostra que o número total de títulos protestados das empresas no país aumentou 26% no acumulado do primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano anterior. Não é sem razão que, de janeiro a julho deste ano, o comércio carioca, por exemplo, teve mais de 2.370 lojas fechadas. No estado foram mais de seis mil no mesmo período.

Para este ano, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) revisou a sua expectativa de vendas do comércio brasileiro para um recuo de 4,8%, após o setor acumular queda de 7% no primeiro trimestre do ano, em relação ao mesmo período do ano passado.

PUBLICIDADE

A nossa esperança é que o país volte definitivamente a um quadro político normal e que a economia retome o caminho do crescimento. Para que tudo isto aconteça e possa se tornar realidade, visões mais abertas e transparentes do poder público precisam ser mais focadas e harmonizadas com as dimensões do negócio, gerando investimentos possíveis e necessários num país que não pode perder mais tempo, que precisa crescer continuamente. Sem sustos.

Vivemos um momento que, mais do que nunca, requer olhos voltados para o futuro e se confia que, com a participação dos setores representativos da sociedade, novos caminhos possam ser pavimentados e novos níveis de atividade econômica sejam conquistados em benefício de toda a sociedade, dos setores produtivos e do país.

Aldo Gonçalves é presidente do Clube de Diretores Lojistas do Rio; do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Município do Rio de Janeiro e do Conselho Empresarial de Comércio de Bens e Serviços, da ACRio.

Fonte: Jornal O Globo

COMPARTILHE