Reage Rio: a volta por cima da cidade através do turismo

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Nos últimos dias, o Rio tem exibido para o Brasil e o mundo cenas de mortes em confrontos, traficantes em guerra, ônibus queimados, caminhões saqueados e motoristas e passageiros acuados. Os índices de violência aumentam, ao mesmo tempo em que a crise econômica impõe sacrifícios e afeta serviços, comércio e indústria. O clima é de incertezas. Mas empresários e autoridades apostam no turismo como forma de a cidade dar a volta por cima. Mais que isso: apresentam iniciativas concretas voltadas para atrair visitantes e, consequentemente, recursos, que podem ser aplicados em outras áreas. Calendário de eventos para o ano inteiro, campanhas de massa, projetos visando garantir mais segurança nas ruas, especialmente nas áreas turísticas, e novas atrações são tratados como prioridade.

E não é para menos. Na ponta do lápis, contas mostram o quanto o turismo pode render em dividendos. Estudo encomendado pelo Conselho de Turismo do Rio à Fundação Getulio Vargas (FGV) revelam, num cálculo moderado, que, se o calendário “Rio de Janeiro a Janeiro” — com eventos o ano inteiro — atrair 15% a mais de turistas, o impacto econômico total na cidade será de R$ 4,61 bilhões em um ano. Só em arrecadação de tributos para a prefeitura, a estimativa é de que entrem a mais para os cofres municipais cerca de R$ 200 milhões. Quanto a empregos, técnicos da FGV falam em novos 74.560 postos de trabalho. Tudo isso levando em consideração que o trabalho foi feito com base em 2016, um ano de crise.

Idealizador e presidente do Rock in Rio, Roberto Medina, que integra o conselho junto com outros três empresários — Ricardo Amaral, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e Paulo Protasio – lamenta que, no município e no Brasil nunca tenham havido investimentos sérios no turismo, “indústria que é a segunda do mundo, e a que mais emprega”. São de dois a três empregos por quarto de hotel ocupado.

— Foram investidos no Rio em torno de R$ 25 bilhões em estrutura, nos últimos quatro anos. Como legado olímpico temos um novo sistema viário, novas arenas esportivas, o Centro revitalizado e muito mais. Com um produto valorizado em R$ 25 bilhões, somado à exuberância da natureza e à generosidade das pessoas que moram aqui, o Rio torna-se um dos maiores ativos do mundo na setor de turismo, se ele for levado a sério — defende Medina.

Desenhado pelo conselho, o “Rio de Janeiro a Janeiro” deve ser lançado no início do segundo semestre e já ganhou marca, que muda de cor ao longo do ano para destacar o tema previsto no mês, e até a primeira peça publicitária. A ideia é que a cidade tenha eventos ao longo de 12 meses. Serão 12 grandes — incluindo Natal e réveillon, com programação que irá além da data festiva —, além dos médios e pequenos. A maratona do Rio deverá ter dois dias. Outra novidade prevista é ter um mês dedicado a grupos de musicais: nada menos que 300 espalhados pela cidade, às sextas, sábados e domingos; acompanhados de descontos para os visitantes em shoppings, restaurantes e bares, bastando apresentar documento.

O empresário lembra, no entanto, que tanta movimentação na cidade precisará ser acompanhada de segurança. Ressalta que, no primeiro ano do calendário, o conselho vai reivindicar ao estado e, sobretudo ao governo federal, que criem e financiem um efetivo policial capaz de garantir o ir e vir das pessoas: — Se o Rio vai mal, o Brasil vai mal. Afinal, o Rio é a porta de entrada da maioria do turismo de lazer no Brasil, e é a cara do país no exterior.

Segurança é procupação

Na mesma linha, o presidente do Rio Convention Bureau e da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-RJ), Alfredo Lopes vai pleitear uma reunião do setor com o presidente Michel Temer para tratar do tema segurança. Isso sem deixar de lado o trabalho para atrair turistas: vai participar do Roadshow Visit.Rio programado para maio e junho, a fim de mostrar o novo Rio no Brasil e na América do Sul.

— O número de quartos de hotel dobrou de 30 mil para 60 mil com a Olimpíada. E não foi pensado um plano para depois dos Jogos. O estado está numa situação financeira ruim, e o problema da segurança gera apreensão.

Já o prefeito Marcello Crivella defende a adoção de uma política de tolerância zero na segurança nas áreas turísticas da cidade. O assunto será um dos temas da reunião do Gabinete de Gestão Integrada municipal marcada para acontecer na segunda-feira, da qual devem participar representantes das Forças Armadas, da Polícia Federal, da Guarda Municipal e dos órgãos de segurança do estado.

— O grande passo para estimular o turismo é a tolerância zero. Queremos criar um clima de basta (à violência) na cidade, começando pelas áreas turísticas, que também precisam estar limpas e iluminadas. Ali é a nossa vitrine. É o lugar da grande vocação do Rio, que é divina, o turismo — destaca o prefeito. — A Riotur vai me dizer quais as áreas mais visitadas, que é por onde vamos começar. Espero que em 90 dias, no máximo, o povo do Rio de Janeiro, sobretudo os que moram nos centros comerciais turísticos, de Santa Cruz ao Leblon, estejam sentindo os efeitos do nosso esforço.

Crivella anuncia ainda o lançamento de parceria público-privada (PPA) para a substituição da iluminação das vias públicas por 450 mil lâmpadas de LED, a fim de aumentar a sensação de segurança, além da compra de 500 motos para a Guarda Municipal e a contratação de 60 agentes. As áreas turísticas serão as primeiras a serem beneficiadas.

— Quando a gente trás o turista, chegam recursos de fora. É o que se chama de economia indutora. Com os recursos do turismo, a cidade pode melhorar a sua infraestrutura de habitação, saúde e educação, diretamente ligada à segurança. O investimento em turismo é redentor — afirma o prefeito, que pretende fazer uma campanha de conscientização voltada para as pessoas que não moram em áreas turísticas: — O objetivo é que cuidem do patrimônio, falem bem, mantenham a limpeza e repudiem qualquer ação criminosa nessas áreas. Elas são fundamentais para que o Rio prospere. Com os recursos do turismo se pode investir nas comunidades, na Zona Oeste, em escolas, áreas de lazer e hospitais.

Boni bate na mesma tecla:

— Temos que olhar o turismo não como festa, mas como negócio para o Rio melhorar. Ele gera dinheiro para a segurança, as escolas e a saúde. O turismo precisa ser o principal negócio do Rio, que é uma joia rara. No entanto, está em 96ª lugar do mundo entre as cidades mais visitadas.

Festa em Copacabana

Curador do evento de lançamento do “Rio de Janeiro a Janeiro”, o empresário revela que para a festa, na Praia de Copacabana, está programado um espetáculo classico-popular inédito: entre 1.500 e 1.800 ritmistas das 12 escolas de samba do Grupo Especial tocarão junto com os músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Com o show detalhado, o trabalho, agora, é correr atrás de recursos junto à iniciativa privada e à prefeitura para a sua realização.

Para o carnaval de 2018, Boni conta que, independentemente de suas convicções religiosas, Crivella vai se engajar, porque está convencido de sua importância para o Rio. Assim é que o prefeito autorizou semana passada investimentos na renovação total da iluminação do Sambódromo, que, durante os desfiles focará as escolas, sendo reduzidas as luzes das arquibancadas. Com a aprovação dos testes feitos ano passado, o som também vai mudar: serão retirados todos os cabos da avenida, a transmissão será por rádio frequência e as caixas de som serão substituídas por modelos menores. Na segurança, para evitar acidentes com carros alegóricos, como os que ocorreram este ano, toda a escola precisará ter um engenheiro registrado no Crea.

Também integrante do Conselho de Turismo, Ricardo Amaral está confiante que será possível movimentar a economia da cidade, a partir de um calendário robusto de eventos:

— Tenho a convicção que podemos fazer um Rio de mãos dadas. Acho que o carioca vai se incorporar. Será uma bela caminhada. Estou muito entusiasmado.

Outro integrante do conselho, o presidente da Associação Comercial do Rio, Paulo Protasio anuncia até mudanças no VLT. Segundo ele, em agosto os veículos e as áreas por onde eles passam ganharão wi-fi. Os usuários poderão ainda baixar um aplicativo que permitirá pagar a passagem com cartão e acessar informações, em vários idiomas, sobre as atrações da região.

Segundo Protasio, até o fim de agosto, deverá estar concluído um raio-x de cada bairro, relacionando o que existe — como lojas, salas comerciais, indústrias, condomínios, escolas e unidades de saúde — e as carências:

— A partir desse levantamento, vamos procurar parcerias ajudar financeiramente a acelerar a adoção de tecnologias a fim de beneficiar os cidadãos daqui e os turistas. É o conceito de cidade inteligente. Quanto mais se instala câmeras e internet e aprimora-se a iluminação em vias públicas, cria-se um maior constrangimento ao crime.

Por sua vez, a Riotur está focada em campanhas. A partir do último dia 25 de abril, foram instalados galhardetes em postes e colocados painéis com mensagens em relógios digitais, ônibus e metrô. A nova campanha, que se encerra dia 15, é focada em valorizar a hospitalidade do carioca como força importante para a economia do turismo na cidade. Com o tema “O maior cartão postal é o carioca”, ela apresenta personagens identificados com a cidade, que representam diferentes setores de serviços e da cadeia produtiva do turismo. Caso do gari Renato Luiz Feliciano Lourenço, o Renato Sorriso.

— Quem venham mais turistas para o Rio, e que o carioca os receba com um sorriso no rosto — convoca ele.

Sambista de coração e taxista de profissão, Luiz Calixto Monteiro, o Mestre Casagrande, da Unidos da Tijuca, é outro garoto-propaganda da campanha:

— Com todos os seus problemas, o Rio é o Rio.

Presidente da Riotur, Marcelo Alves ressalta que a campanha procura levantar o astral do carioca: — A cidade precisa respirar astral positivo. A gente não pode se afogar nas notícias negativas. O Rio não combina com isso. Já provamos ao mundo nossa competência para realizarmos os maiores e melhores eventos do mundo.

Outra campanha deflagrada em 25 de abril — bandeiras de saudação aos turistas, em vários idiomas, instaladas nas imediações dos aeroportos — não tem prazo para sair das ruas. No próximo dia 16, será a vez de lançar mais um chamamento: “Carioca, faça turismo no Rio de Janeiro”.

— Tem muito carioca que não conhece o Corcovado, o AquaRio, o Museu do Amanhã, a Lagoa de Marapendi. O carioca fazendo turismo vai gerar mais emprego, mais consumo, mais receita para a cidade. É preciso movimentar a economia — observa Alves, acrescentando que o projeto “Carioquinha”, de descontos para cariocas deve ser ampliado, incorporando mais pontos turísticos, bares, restaurantes e casas de espetáculo, e poderá começar mais cedo, em julho.

Entre os promotores de eventos e responsáveis por pontos turísticos o que não falta é aposta. Em sua 32ª edição, o Rock in Rio (15 a 24 de setembro) acontecerá num novo espaço: o Parque Olímpico. Os organizadores estão ainda negociando a realização de uma agenda paralela durante o festival, com atrações em pontos turísticos.

A XVIII Bienal do Livro (de 31 de agosto a 10 de setembro) também virá com novidades, entre elas um espaço para Rickquadrinhos. Vania Andrade, diretora-geral da Fagga/GL Events Exhibitions, que promove a bienal, acredita que este ano o público será 20% maior do que os 600 mil da última edição, por conta da melhoria nos transportes: — O Rio é mais do que os problemas que estamos presenciando. A cidade está pronta para que os eventos cresçam.

Diretor-presidente do AquaRio, Marcelo Szpilman está entusiasmado com o público que visita o aquário do Rio, no Porto. Em abril, estiveram lá 108 mil pessoas. Aos sábados, domingos e feriados, são entre seis mil e sete mil. Este mês, o espaço lançará a “visita aos bastidores”, em que o público poderá conhecer todo o sistema de suporte de vida dos animais e assistir da parte de cima do grande tanque a alimentação de peixes, tubarões e arraias. O programa “dormindo no aquário” deve estrear em dois meses, e o “mergulhando com tubarões”, até o início do ano que vem. — A região do Porto está relativamente segura, e o AquaRio passou a ser o novo ícone da cidade — comemora Szpilman.

Tão empolgado está o consórcio Paineiras-Corcovado, que opera o transporte de vans até o Cristo Redentor e o Centro de Visitantes Paineiras. Diretor do consórcio, Pablo Mórbis anuncia para o segundo semestre a entrega do quarto e do quinto andares do centro, que será um local para eventos, e a melhoria das linhas de vans que partem do Largo do Machado, Copacabana, Barra e Paineiras.

— No ano passado, 2,3 milhões de pessoas visitaram o Cristo Redentor. O último verão foi aquecido. Acredito que este ano o público deve ser maior do que o de 2016 — prevê Mórbis.

Fonte: Jornal O Globo

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