‘Semana de horror’, por Ricardo Cravo Albin

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A consciência nacional passou a ter uma certeza: meliantes que roubam e corrompem o tecido político só se curvam quando sabem que a lei da máfia não vale mais por aqui.

Mantenho nesta página certa tradição de escrever sobre opiniões mais positivas que negativas. Hoje, logo depois do inspirador Domingo de Páscoa, ainda me revolto com os acontecimentos terríveis da última semana. Um fora, outro dentro do Brasil.

O primeiro horror foi o ataque com gás letal do governo sírio a uma cidade de seu próprio país. A guerra química é a mais abominável dentre todas e para qualquer consciência. Supostamente inodoro, o gás chega ao alvo como uma brisa nem sequer percebida, espalhando o ar maligno como um tiro surdo nos pulmões e na pele.

Do que li, a morte das vítimas é cruel e de “descrição proibitiva” — expressão amável usada por Nelson Rodrigues para se referir à tragédia do incêndio do circo em Niterói (1961). Lembro esta tragédia brasileira de meio século porque as vítimas eram crianças em maioria.

Tal como na Síria, cuja imagem emblemática do pai abraçando os dois filhos mortos — uma “mater dolorosa” masculina — fez o ataque sírio verter lágrimas de indignação e de dó no mundo inteiro, mas o dó de bater fundo na alma, aquele de exclamar “pare o planeta, que quero saltar”.

O desalento foi tanto que a reação do inacreditável canastrão Donald Trump que, disparando mísseis como protestos, alçou sua nula popularidade a níveis inesperados.

O outro horror, o de dentro do Brasil, ocorreria às vésperas da Semana Santa, quando o STF abriu o sigilo das delações da Odebrecht. A mim, ainda bafejado pelo espírito bíblico da Paixão de Cristo, pareceu uma réplica histriônica das sete pragas do Egito. As sete daqui eram centenas, titularizando políticos de todos os matizes.

Ao desconsolo que experimentei ao conhecer as patifarias, antepunha-se um certo halo de esperança — um enorme suspiro de expectativa para o saneamento da política malsã, uma possibilidade de ar mais respirável por aqui.

Eu pensei cá comigo, um tanto regalado, sobre o bem que Sergio Moro introjetou neste eterno país de conto da carochinha, onde os colarinhos-brancos jamais eram sequer apontados à execração pública. Muitíssimo menos, punidos.

E avalio agora o benefício que o instituto da delação premiada fez ao Brasil da impunidade, estilhaçando o compadrio e a blindagem dos sócios do mesmo crime, os bandidos habituais das mais tenebrosas transações.

A consciência nacional passou a ter uma certeza: meliantes que roubam e corrompem o tecido político só se curvam quando sabem que a lei da máfia não vale mais por aqui, ou seja, bico-calado e protetor de quadrilhas agora dão cadeia.

Nada testemunhei como tão aclarador, inteligente e… justo. Além de o único remédio eficaz contra as deslavadas imposturas e mentiras de sempre.

Ricardo Cravo Albin
Presidente do Conselho Empresarial de Cultura da ACRio
Presidente do Instituto Cultural Cravo Albin

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